Desastres ambientais, mudanças climáticas e desenvolvimento regional no Rio Grande do Sul

abordagens sociológicas para uma reflexão teórica no novo regime climático

Autores

  • Rafael Luft Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

DOI:

https://doi.org/10.26767/colquio.23.4416

Palavras-chave:

Desastres, Desenvolvimento regional, Vulnerabilidade social, Novo Regime Climático

Resumo

Este artigo realiza reflexão teórica, metodológica e epistemológica sobre as dinâmicas do desenvolvimento regional à luz das mudanças climáticas e dos desastres no contexto do Novo Regime Climático. A análise parte de abordagem sociológica que rejeita a naturalização dos desastres, compreendendo-os como fenômenos socialmente construídos e enraizados em processos históricos, econômicos e políticos. Discutem-se os limites da noção tradicional de desastres naturais, argumentando-se que essa concepção desresponsabiliza atores sociais e ignora as estruturas que produzem riscos e vulnerabilidades. Fundamentada nas teorias da sociedade de risco, do Novo Regime Climático e do Antropoceno, a discussão evidencia como a modernidade industrial gera riscos globais e incertos, tornando os desastres expressão de conflitos e desigualdades, e explora o caráter interdisciplinar e sociotécnico das disputas em torno da definição e da gestão desses eventos. Em seguida, o foco recai sobre o contexto brasileiro, destacando como os desastres refletem estratégias falhas de desenvolvimento que aprofundam desigualdades e injustiças ambientais. A análise crítica do paradigma da vulnerabilidade evidencia sua relação com processos sociais como urbanização desordenada, precariedade institucional e exclusão. O caso das enchentes no Rio Grande do Sul (2023-2024) ilustra tais dinâmicas, ao revelar como a distribuição dos danos humanos correlacionou-se a indicadores prévios de capacidade institucional municipal. Metodologicamente, o artigo fundamenta-se em revisão bibliográfica sistemática da produção sociológica sobre desastres. Conclui-se pela centralidade da sociologia na compreensão crítica dos desastres e de seus vínculos com os modelos de desenvolvimento regional.

Biografia do Autor

Rafael Luft, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Rafael Luft é Coronel da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, atualmente Comandante Regional da Polícia Militar da Fronteira Noroeste (CRPM FN). É doutorando em Sociologia dos Desastres, com pesquisa voltada às vulnerabilidades institucionais das capacidades estatais de formulação de políticas públicas na área de proteção e defesa civil, com ênfase crítica sobre a atuação municipal nas fases de prevenção, preparação, resposta e proteção frente a desastres. Sua abordagem dialógica com a tradição clássica dos estudos de desastres (Quarantelli, Fritz, Dynes) e com formulações contemporâneas sobre vulnerabilidade social, sociedade de risco e o Novo Regime Climático (Beck, Oliver-Smith, Tierney, Latour), articuladas à produção brasileira sobre o tema (Valencio, Peek, Marchezini, Siena, Iwama). É também doutorando em Ciências Militares, com ênfase em Defesa Social, investigando modelos de governança horizontal e multinível em segurança pública, com foco na participação social nos investimentos do setor, da Consulta Popular ao PISEG, no Rio Grande do Sul, em diálogo com experiências nacionais e internacionais correlatas. Lidera atualmente o projeto de implantação do COPOM Regional em Santa Rosa (RS), estrutura de inteligência integrada baseada em IoT, inteligência artificial e redes mesh externas ao enfrentamento de crimes transfronteiriços na fronteira noroeste gaúcha. Além de manter relação com Universidades e Faculdades da região, sendo organizador do "I Seminário de Segurança Pública, do Desenvolvimento a Proteção de Gênero na FN".

Referências

AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer: o poder soberano e a vida nua. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.

BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. Tradução de Sebastião Nascimento. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2011.

DYNES, Russell R. Organized behavior in disaster. Lexington: Heath Lexington Books, 1970.

GRIN, Eduardo José; DEMARCO, Diogo Joel; ABRUCIO, Fernando Luiz. Capacidades estatais municipais: o universo desconhecido no federalismo brasileiro. Porto Alegre: Editora da UFRGS/CEGOV, 2021.

LATOUR, Bruno. Diante de Gaia. São Paulo: Ubu Editora, 2020.

LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.

OLIVER-SMITH, Anthony. Haiti and the historical construction of disasters. NACLA Report on the Americas, New York, v. 43, n. 4, p. 32-36, 2010.

PEEK, Lori. Children and disasters: understanding vulnerability, developing capacities, and promoting resilience: an introduction. Children, Youth and Environments, Boulder, v. 18, n. 1, p. 1-29, 2008.

PERRY, Ronald W. What is a disaster?. In: RODRÍGUEZ, Havidán; QUARANTELLI, Enrico L.; DYNES, Russell R. (Ed.). Handbook of disaster research. New York: Springer, 2017. p. 1-15.

QUARANTELLI, Enrico L. What is a disaster? Perspectives on the question. In: QUARANTELLI, Enrico L. (Org.). What is a disaster? Perspectives on the question. London: Routledge, 1998. p. 1-7.

RIO GRANDE DO SUL. Decreto n. 57.646, de 30 de maio de 2024. Reconhece situação de emergência e estado de calamidade pública nos municípios afetados pelas enchentes. Porto Alegre: Governo do Estado, 2024.

TIERNEY, Kathleen. The social roots of risk: producing disasters, promoting resilience. Stanford: Stanford University Press, 2014.

VALENCIO, Norma. Sociologia dos desastres: construção, interfaces e perspectivas no Brasil. São Carlos: RiMa Editora, 2009.

VALENCIO, Norma. Desastres: tecnicismo e sofrimento social. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 19, n. 9, p. 3631-3644, set. 2014.

VALENCIO, Norma; SIENA, Mariana; MARCHEZINI, Victor. Gestão de riscos e desastres hidrológicos. São Carlos: RiMa Editora, 2011.

WISNER, Ben et al. At risk: natural hazards, people's vulnerability and disasters. 2. ed. London: Routledge, 2004.

Publicado

2026-10-01